Ojos del Salado (6893 metros), o mais alto vulcão do mundo.

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Deixamos o camping municipal de Barreal ainda cedo da manhã da terça-feira 12 de fevereiro de 2019 rumo a Mendoza, onde combinamos de encontrar um cliente para a expedição comercial do Nevado San Francisco (6018 m) e  Ojos del Salado (6893 m). Ambas montanhas são situadas na Puna do Atacama.

Havíamos alugado dois quarto em uma casa em Las Heras, cidade vizinha de Mendoza, pelo Airbnb. Chegamos no local por volta do meio-dia e encontramos nosso cliente que havia chegado de avião em Mendoza um pouco antes. Por motivo de sigilo, vou denominá-lo de C1. 

Também estava nos aguardando na casa o Ediceu, que precisava pegar de volta  um duffle com seus pertences que havia deixado dentro da Tracker quando escalamos o Aconcágua

Depois de descarregarmos a montanha de bagagem de dentro do carro para o nosso quarto, o Tiago deu uma carona para o Ediceu até o aeroporto de Mendoza que fica perto de nossa hospedagem. Ele tinha voo e volta para o Brasil ainda naquele dia. Logo mais chegou o nosso anfitrião, o Juvenal, um senhor muito simpático e inteligente. Ele havia comprado flores para nos receber e ainda nos agraciou com uma ótima conversa. 

No dia seguinte, saímos para fazer câmbio e alugar equipamentos de montanha para C1 e para o Chico Motta. O Chico é um amigo, cliente e também de Santa Maria RS.  Ele nos esperaria para buscá-lo em Copiapó no Chile. Ainda de manhã, após tudo resolvido, voltamos para a casa do sr. Juvenal. Tínhamos pressa em partir, pois a viagem era longa. Encaixamos a infinidade de equipamentos de volta para dentro do carro, nos despedimos de nosso querido anfitrião e partimos.

Durante o trajeto, passamos pela cidade de Chilecito na província de La Rioja para abastecer e compramos bifes de chorizo e pimentões para assar. C1 disse que gostava muito de cebola assada e escolheu a maior que havia no mercadinho. Chegamos às 22 horas no camping El Paradiso da pequena cidade de Fiambalá  depois de rodar 700 Km naquele dia. Estávamos famintos, então o Tiago tratou de encaminhar o nosso assado, e eu de montar as barracas com a ajuda de C1.

Enquanto a carne estava sendo assada, se apresentou para o jantar o gato preto chamado “Gari”. Também apresentou-se um homem argentino (não lembro o nome, mas ele era amigo ou parente dos proprietários do camping), mas não para o jantar, mas sim para uma roda de conversa. Ele falava bem o português, pois já havia percorrido uma boa parte do Brasil, e o irmão dele morava em Minas Gerais. 

Era passado da 1 hora da manhã quando nos recolhemos para dormir, e às 6:30 da manhã já estávamos em pé novamente para encarar mais um dia longo de viagem. 

Subimos na direção do Paso San Francisco (4700 m), onde tem uma aduana argentina e Las Cuevas, para dar saída no país e seguimos para a aduana de Maricunga (3700 m) para dar entrada no Chile. A aduana chilena é bem rigorosa. Eles pedem para tirar tudo de dentro do carro e as bagagens são passadas por um Raio-X. Além disso, colocam um cachorro no carro vazio para farejar se há alguma droga escondida. Quanto aos alimentos, podem ingressar somente os industrializados, lacrados na embalagem e com rótulo (exceto produtos derivados de carne, laticínios, chás e mel). Como éramos os únicos na aduana de Maricunga e tudo estava em ordem, a vistoria transcorreu tranquilamente e fomos liberados para descer para Copiapó.

Chegamos em frente ao hotel Ibis onde o Chico estava hospedado para buscá-lo. Ainda tivemos que ir ao shopping para fazer câmbio de pesos chilenos e comprar mantimentos no supermercado para a nossa expedição para o Nevado San Francisco (6023 m) e Ojos del Salado (6893 m).  

Retornando de Copiapó, subindo de volta a estrada, encontramos um local protegido e acampamos no deserto para dar sequência à viagem no próximo dia. Nesse camping, recebemos a visita de um zorro muitíssimo interessado na nossa comida. Pela manhã, o bichinho ainda rondava o acampamento. Levantei pra ir ao banheiro, e ele foi me acompanhando à distância. Voltei para onde estavam as barracas, e ele foi acompanhando de volta. 

Vestimos nossas roupas de trekking e continuamos subindo a estrada em direção à Laguna Santa Rosa. Era preciso começar a fazer o processo de  aclimatação dos clientes. Em meio à estrada, estava atravessado um belo e preparado Toyota Land Cruise, e o Tiago meteu a mão na buzina para saírem do caminho. Em retribuição os alemães do jipe nos olharam com cara feia.

E então o Tiago deixou nós três a uma altitude de 4.200 metros em uma estradinha 4×4, onde há uma placa do Parque Nacional Tres Cruces. Dalí começamos o trekking de aclimatação, subindo o morro por uma estrada 4×4 que vai até o topo. Enquanto isso, o Tiago desceu para deixar o acampamento já montado a 3.900 m em uma área próxima à entrada do Parque Três Cruces.

Durante a caminhada, sempre procurava manter um ritmo tranquilo e constante, observando sempre como C1 e o Chico estavam se saindo. Chegamos ao topo desse morro, a 4.750 m, e saí da trilha pela direita para aproveitar a belíssima vista para a Laguna Santa Rosa, os Três Cruces, o Vulcão Copiapó e o Ojos del Salado. Ficamos por mais de meia hora ali tirando fotos e lanchando. Descemos a trilha de volta e o Tiago nos aguardava com o carro em um ponto mais abaixo de onde ele nos havia deixado inicialmente. 

Quase chegando ao acampamento, avistamos as três barracas montadas, lindas e maravilhosas, bem ancoradas.Também avistamos o jipe dos alemães e uma caminhonete, que até então pensávamos que era de alguma mineradora, mas que era da CONAF (Corporación Nacional Forestal – uma entidade Chilena de direito privado dependente do Ministério da Agricultura, que possui a função de administrar a política florestal do Chile). 

A CONAF estava ali para avisar que não era mais permitido acampar naquela área, e já haviam passado o sermão nos alemães, que pretendiam ser nossos vizinhos de acampamento.  O mais interessante é que não havia placa informando a respeito disso, e até o ano anterior era permitido acampar ali. Agora poderia somente onde há concessão, ou seja, no Refúgio Santa Rosa, que cobrava a “bagatela” por noite de 15.000,00 pesos chilenos por pessoa + 5.000,00 da entrada no parque (o que corresponde na época a R$ 111,00 por pessoa para apenas uma noite) ou em qualquer área fora da demarcação do parque.

Os funcionários  da CONAF nos forneceram um mapa para que pudéssemos visualizar a área do parque. A Laguna Verde estava fora dela, porém, por estar a 4300 m, seria muito alto para o Chico e C1 pernoitarem nela. Maricunga também estava fora e fica a 3700 m. Decidimos pernoitar lá. 

Desmontamos o acampamento que o Tiago havia deixado bem organizado e partimos para a aduana de Maricunga. Chegando lá, deixamos nossa autorização do DIFROL com os Carabineros, e também pedimos autorização para acampar nos fundos do galpão vermelho, o que nos foi concedido. No fim das contas, o local foi perfeito. 

Quem pretende escalar montanhas no Chile, deve obrigatoriamente apresentar o plano de ascensão ao DIFROL para que este órgão conceda a autorização. Posteriormente é necessário solicitar uma autorização complementar e neste caso as informações estão presentes na primeira autorização (a do DIFROL).

Depois de, enfim, montadas as barracas novamente, passei na dos clientes para medir a saturação e ver se apresentavam algum sintoma de mal de montanha. Ambos estavam muito bem. Mais tarde o Chico apareceu em nossa barraca Himalaya 2 Azteq para uma prosa e apreciar um chimarrão. 

Acordamos no dia seguinte às 7 horas. Fazia -2 ºC, o que nos fez a ficar “enrolando” por mais uma hora para sair dos sacos de dormir. Começamos a desmontar o acampamento logo após o café da manhã. Assim que tudo pronto, partimos para a Laguna Verde. Era dia de descanso. 

Chegando lá, enxergamos várias coloridas barracas preenchendo os espaços da areia branca e o jipe dos alemães. A Laguna Verde estava bem movimentada, pois era sábado e o local estava repleto de turistas e montanhistas.

Com o carro, fomos passando em frente às barracas procurando alguma pirca vaga para nós. Nisso, avistamos nosso amigo Pedro Hauck, montanhista paulista radicalizado em Curitiba e um dos sócios da empresa Gente de Montanha. No que descemos, ele veio nos cumprimentar e já foi oferecendo um lanchinho, nos levando até a barraca refeitório deles. Não precisou de um segundo convite para aceitarmos. Colocamos a conversa em dia, enquanto nos deliciávamos com o sanduíche de atum. 

Quando levantamos para montar as nossas barracas, o sol já estava “à pino”. Assim que as montamos, nos refugiamos para dentro delas, colocando os isolantes de E.V.A no sobreteto para amenizar o calor. Eu costumo brincar que na altitude não tem irradiação ultravioleta, mas a “ultra violenta”. 

Quando o sol amenizou, isso por umas 19 horas, eu e o Tiago fomos aproveitar um banho de água termal. Ele ficou na terma por uma meia hora e saiu, enquanto eu tentava criar iniciativa para sair da banheira. E o sol foi se pondo. Então não me arrependi de ter adiado a saída, pois, enquanto curtia o calor da água, pude assistir os tons alaranjados contornando os cumes nevados das montanhas que ilustravam a paisagem.

Na manhã seguinte, era dia de trekking de aclimatação no Mulas Muertas. Saímos da Laguna Verde às 9 horas. Cruzamos a estrada e, na boca da trilha, o Tiago lembrou que não havia protegido os três galões de gasolina com 20 litros cada do sol/calor. Desceu rapidinho, enquanto nós três o aguardamos. Não tardou muito para ele retornar. Ele reapareceu caminhando rapidamente, pois, assim como eu, havíamos escalado o Cerro Mercedário e o Cerro Aconcágua alguns dias antes, portanto, estávamos mais aclimatados.

Retomamos a trilha e seguimos em um ritmo bem calmo para que o Chico e C1 não se desgastassem muito e a aclimatação se sucedesse bem. Chegamos em um mirante a 5000 metros e paramos para almoçar e nos hidratar. Como todos estavam se sentindo bem, aceitaram em subir mais 200 metros.  Ficamos mais de meia hora a 5200 m admirando as inúmeras montanhas no horizonte, sendo algumas delas o Nevado San Francisco, Incahuasi e El Muerto. E ainda, o próprio cume dos Mulas Muertas, a 5900 m.

Ao começarmos a descer, meus bastões de caminhada com mais de 2 anos de uso intenso começaram a fechar sozinhos (no Aconcágua já estava acontecendo isso), demonstrando de fato que as travas já estavam bem desgastadas. Parei umas cinco vezes em meio à trilha para abri-los novamente e apertar a rosca. Haja paciência! Por sorte, havíamos levado pares extras de bastões novos como reserva. 

Chegando de volta à Laguna Verde, encontrei a Maria Tereza Ulbrich, a brasileira que mais escalou montanhas andinas acima de 6 mil metros, além de ser uma pessoa super querida e também esposa do Pedro Hauck. Este, por sua vez, veio ao nosso encontro, assim que chegamos, convidando para levar o chimarrão para a barraca refeitório, onde todos poderiam confraternizar.  Muitos clientes do Pedro também aderiram à roda de chimarrão, inclusive um mineiro. 

O Chico, depois de recuperado da dor de cabeça, apareceu ali também para saborear alguns mates antes de ir para a terma e C1 ficou entocado na barraca. 

Como de rotina, à tardinha fui até os clientes para medir a saturação e ver como estavam. Ambos continuavam bem e tanto o Chico como C1 estavam planejando o cardápio do jantar. O bom apetite deles também indicava a boa aclimatação. Cumprida a tarefa diária, foi minha vez de aproveitar novamente as águas termais. Não demorou muito para o Tiago se juntar a mim. Mas dessa vez o banho foi rápido. Ventava bastante e fazia mais frio em relação aos dias anteriores.

Dedicamos a segunda-feira para o descanso. Nesse dia reunimos os clientes para orientar como seria a ascensão ao Nevado San Franciso e os ajudamos a separar os equipamentos necessários. 

Acordamos às 3 horas da terça-feira para começar os preparativos para a ascensão ao Nevado San Francisco. Às 4:45 já estávamos vestidos para a guerra, colocamos nossos equipamentos no carro e partimos para a base da montanha.  

Uma das características dos 6 mil da Puna do Atacama é que se chega alto de carro na base das montanhas, então é preciso fazer a aclimatação em lugares diferentes, mas sempre respeitando o sistema “sobe alto e dorme baixo” e de progressão da subida. Já nos Andes Centrais, onde a maioria das montanhas possuem a aproximação mais longa, a aclimatação é feita durante a aproximação e ascensão na montanha.

A estrada que leva à base do Nevado San Francisco é bem pedregosa, e a Tracker na reduzida subiu até 5.100m graças à destreza do motorista. Ainda era escuro quando chegamos e era possível ver as luzes das caminhonetes do grupo do Pedro chegando que vinham aproximando velozmente. 

Logo que começamos a andar, C1 quis desistir alegando estar cansado. Achei estranho, pois ele vinha se aclimatando bem no decorrer dos dias. Perguntei se estava com dor de cabeça, dor de barriga, náusea, mas não havia nenhum dos sintomas. Então o incentivei para prosseguir em um ritmo mais devagar e colei nele para acompanháĺo. E em passos lentos, C1 foi ganhando altitude. Mas logo trocamos as duplas. O Tiago foi acompanhando C1, enquanto eu, o Chico.  Minha dupla mantinha um ritmo mais rápido (não na velocidade a nível do mar, pois em altitude não se pode forçar o esforço) e constante, e chegou um determinado momento que o Tiago e C1 não conseguiam mais nos acompanhar.

Juntamente com a turma do Pedro, era uma verdadeira invasão de brasileiros no Nevado San Francisco. E como já havíamos feito amizade com o povo nas rodas de chimarrão na Laguna Verde, tagarelávamos durante toda a subida e motivávamos uns aos outros.

Infelizmente C1 desistiu faltando apenas 300 metros verticais para o cume. O Tiago desceu com ele e segui com o Chico rumo ao cume do San Francisco, onde chegamos por volta do meio dia. E naquele dia, o cume do Nevado San Francisco foi tomado pela brasileirada, que confraternizou pela conquista. Para colaborar, o dia estava lindo, sem nuvens. A vista estava deslumbrante.

Eu e o Tiago já havíamos feito o cume do San Francisco na temporada de 2018, mas naquele ano a montanha estava tão nevada, a ponto de a caixa do cume estar enterrada. Eu nem sabia que tinha caixa de cume, na verdade. O tempo também estava ruim. O céu estava completamente fechado de nuvens, impedindo tivéssemos muita vista. 

O spot e a câmera fotográfica haviam ficado com o Tiago, então os registros desse dia espetacular foram feitos pelo meu GPS da Garmin e as fotos ficaram por conta do celular do Chico. Depois de mais de uma hora desfrutando da belíssima paisagem, começamos a descer. Ao final de uma longa rampa, avistei o Tiago nos aguardando. C1 estava no carro e passava bem.

Voltando ao acampamento, eu e o Tiago mateamos, enquanto o Chico foi novamente para as termas. C1 caiu no sono e, quando acordou, comunicou que decidiu abandonar e tentar uma carona para Copiapó, pois, no dia seguinte, muitos clientes do Pedro que não iriam fazer o Ojos del Salado desceriam até a cidade. Tentamos convencê-lo para ficar mais alguns dias, nem que fosse para ficar no acampamento Atacama (5200 m), que fica na base do Vulcão Ojos del Salado, o maior vulcão do mundo e a 2ª montanha andina mais alta, para conhecer o lugar. Não houve jeito. C1 não mudou de ideia. 

Dia 20/02/2019 nos despedimos de C1, que desceu até Copiapó para pegar um voo de volta para o Brasil. Eu, o Chico e o Tiago voltamos para as respectivas barracas para nos organizar para se deslocar até o acampamento Atacama. Nisso surgiu o Pedro à nossa porta e quis saber quais eram nossos planos para o dia. Contamos sobre as nossa intenção de se deslocar até o Refúgio Atacama. Minutos depois ele volta: “Tenho uma proposta que tenho certeza que vai fazer vocês mudarem de ideia. Que tal fazer um churrasco?”. De fato mudamos os planos e ficamos mais um dia na Laguna Verde.

Montamos uma churrasqueira de chão atrás de uma pirca para proteger do vento. O Pedro, juntamente com um guia argentino e um outro chileno, apareceram com duas caixas térmicas com carne e cervejas para um batalhão. Assamos tudo em um estilo argentino misto com brasileiro. Assim que os cortes iam ficando prontos, os servíamos já cortados para facilitar que todos fossem aperitivando. E para acompanhar o assado, muito chimarrão. 

O pessoal atacou vorazmente o churrasco. Um israelense, cliente do Pedro, estava maravilhado com o assado, em especial, com o peito de frango. Também havia um holandês, que estava sozinho acampado ali na Laguna Verde, que era um grande admirador do “barbecue sul-americano”. Além da comida, a convivência, as conversas e risadas também estavam muito boas. O almoço de confraternização se estendeu até a metade da tarde e renovou as energias, especialmente a do Chico. Agora ele estava 100% recuperado do cume do San Francisco e pronto para atacar o Ojos del Salado.

Eu e o Tiago terminamos o dia com o último banho nas termas antes de partir para o Ojos del Salado. Na verdade, seria a última antes de voltarmos ao Brasil.  Dessa vez fomos na “banheira” que fica dentro do refúgio em virtude da ventania. 

Enfim, dia 21 de manhã, partimos para o Acampamento Atacama. Chegando lá, ambos os refúgios estavam ocupados, sendo que um deles pelos alemães do jipe. Então escolhemos duas pircas grandes para montar as duas barracas Mountain 25 The North Face, o que em três pessoas é rápido de se fazer. O Tiago insistia para pegar as maiores pedras possíveis para ancorá-las, o que o Chico achava que era de teimosia. Mas se elas estivessem mal ancoradas, um vento mais forte poderia levá-las para longe, e ventos fortes são bem comuns na região da Puna do Atacama.

Depois do almoço, subimos de carro até o refúgio Tejos, a 5.837 m, para testar as condições da estrada e ver se o carro era capaz de subir até lá. Para minha surpresa e do Tiago, não havia gelo nem na estrada, nem no refúgio. Estava completamente diferente da temporada de 2018. Além disso, era possível visualizar a demarcação da trilha que leva ao cume. Na temporada anterior, a montanha estava completamente nevada, escondendo a trilha. O Refúgio Tejos estava vazio e ficamos ali quase a tarde toda para se aclimatar. 

Ao descer novamente para o Atacama, fomos tomar o mate de todo dia com o Pedro e os outros brasileiros. Quando o sol começou a se pôr, saí em direção à nossa barraca para buscar a lanterna e percebi que a temperatura havia despencado. Então protegi os outros equipamentos eletrônicos antes que a bateria deles descarregasse por conta da baixa temperatura. Como no dia seguinte iríamos subir para pernoitar no Tejos, resolvi começar a separar meus equipamentos para a subida. 

A temperatura diminuía à medida que a noite avançava a ponto de eu fazer a minha leitura noturna enrolada no saco de dormir. Enquanto isso, o Tiago dormia profundamente.

Na manhã seguinte, ao abrir a porta da barraca, caíram placas de gelo. Mas só foi o sol aparecer, que a temperatura voltou a subir. Pegamos os equipamentos e alimentos para os tempo que passaríamos no Tejos e para o dia de cume. O restante deixamos dentro das barracas protegidos do calor. 

Enxergamos um dos alemães do jipe de cargueira testando em direção à estrada que leva ao Tejos, então apuramos para não correr o risco de chegar depois dele. Mas o Tejos era só nosso. Nem sinal dos germânicos. E assim que chegamos, o Tiago tratou de fazer seu vício, digo, o mate. 

Como se farejassem o aroma da erva em contato com a água quente,  chegou a turma do Pedro para se aclimatar e alegrar ainda mais o acampamento mais alto do Ojos del Salado. Eles também planejavam fazer a ascensão ao cume no dia 23/02, pois era a melhor janela de tempo bom. Mas eles não pernoitariam no refúgio, mas viriam de caminhonete na madrugada até ali para, então, fazer o cume.

Ao verem nos três mexendo em comida, despertou a fome no povo. Então desceram para almoçar.  Enquanto isso, aproveitamos algumas latas de atum, tomates e um pão deixados nos armários do refúgio para fazer deliciosas bruschetas. Passamos o resto da tarde andando e curtindo o entorno dali. Ao final do dia, organizamos as mochilas para mais um dia de cume e fomos dormir cedo, pois o dia de cume do Ojos del Salado é bastante pesado. Na minha opinião, mais difícil que o dia de cume do Aconcágua

Quando o alarme soou às 2 horas da manhã, saltamos de nossas camas. Ninguém havia dormido 100% bem. Em véspera de cume, sempre fico na expectativa e com uma neura de não acordar no horário. Realizamos o ritual dos preparativos e nos vestimos para a guerra. Deixamos o refúgio às 03:45. 

Não fazia muito frio naquela madrugada e como estava com muito calor nas mãos, passei meus aquecedores químicos para o Chico, que estava congelando. Passou mais algum tempo e ele continuava de queixando de frio nas mãos, quando descobrimos que ele estava perdendo calor pelo fato de sua luva liner estar ensopada de suor. Então o fizemos ficar somente com os mitons, o que resolveu o problema.

À medida que íamos ganhando altitude, o vento e o frio aumentavam. Para  nossa alegria, os primeiros raios de sol começaram a aparecer quando estávamos na faixa dos 6300 m. O dia clareou de vez quando estávamos a 6500 m em uma rampa de terra, onde paramos para colocar os crampons e passar protetor solar. A turma do Pedro também estava fazendo o mesmo, pois logo à frente a trilha passava em meio ao gelo, além de ser bem íngreme. Para a minha infelicidade, meu protetor solar estava congelado. A uma temperatura normal ele já era bem pastoso, e com o frio da madrugada ele endureceu de vez. Com muito esforço, consegui lambuzar de leve as bochechas e a ponta do nariz, faltando a testa. Para solucionar o problema, puxei bem a balaclava para cobrí-la. 

Seguimos a subida, com o Chico sempre entre eu e o Tiago. Eu ia à frente do trio. E à medida que subíamos, as energias do Chico iam se esgotando. Fazíamos ele parar algumas vezes para se hidratar e comer alguma coisa. Dia de cume é sempre extremamente desgastante.

Quando chegamos na borda cratera, apontei para o outro lado mostrando a parede de pedra onde fica o cume. Ao ver a rampa, o Chico decidiu parar por ali, pois estava extremamente exausto para prosseguir. Nos disse para que fossemos ao cume e nos esperaria ali descansando em um local protegido e curtindo a vista. Eu e o Tiago rumamos para o cume. Eu estava extremamente feliz, pois estava com o cume do Ojos de Salado engasgado.

Em 2018 eu também havia chegado até a cratera e falei para o Tiago fazer o cume. Geralmente minha aclimatação é boa em altitude, mas naquela temporada algo deu errado. Talvez pela meia garrafa de vinho chileno que inventei de beber durante a aclimatação. Além de eu nunca beber, inventei de fazer isso em altitude. Além disso, no ano anterior, a montanha estava totalmente nevada. No dia em que fizemos o cume, subimos abrindo a trilha. Havia trechos em que eu afundava até a coxa na neve. Além disso, eu havia me alimentado muito pouco. Comi somente no café da manhã e, concentrada em vencer as dificuldades impostas pelas condições da montanha, eu acabei esquecendo de comer durante o resto do dia. Acredito que foi uma soma de fatores que fizeram eu me sentir extremamente fatigada na cratera naquele ano de 2018 a ponto de desistir do cume. E eu não sou uma pessoa de desistir de alguma coisa. Mas é pelos erros que a gente aprende. E na maioria das vezes, eles ensinam muito mais que os próprios acertos.

Chegando na base da grande pedra do cume, ali também estavam o Pedro e cia. A subida da “grande pedra” requer uma escalaminhada sem grandes dificuldades. Acredito que o trecho seja mais fácil quando não tem gelo. Ali já tem cordas fixadas, mas não muito confiáveis. 

Por fim, aconteceu que uma brasileirada conquistou o cume do Ojos del Salado (6893 m) naquele dia. E esse foi o meu quarto cume de seis mil metros na temporada andina de 2019.

O espaço do cume é extremamente estreito, fazendo com que tivéssemos todo o cuidado ao transitar de um lado para o outro para não pisar com os crampons na mão ou na roupa de ninguém.

Não ficamos ali em cima por muito tempo, pois o caminho até o Tejos seria longo e a descida da grande pedra também deveria ser um de cada vez, com o cuidado redobrado pela altitude elevada. Eu e o Tiago tiramos nossas fotos, assinamos o caderno do cume e fomos os primeiros a descer. Voltamos à cratera e reencontramos o Chico, que nos parabenizou pela conquista. Começamos a interminável descida, pegando uma rota mais à esquerda, evitando passar pelos trechos mais íngremes de gelo..

Chegamos ao Refúgio Tejos, apelidado de “Lejos” (significa longe) pelo Chico, por volta das 18 horas. O Tiago foi guardar as mochilas no carro e verificar algumas coisas antes de descer para o acampamento Atacama, enquanto eu e o Chico entramos no refúgio. Ele foi se estender em uma das camas do quarto e eu sentei em um banco da cozinha para tirar as botas duplas, as meias, a balaclava, a calça impermeável e a calça de fleece. Estava com muito calor e as roupas estavam ensopadas de suor. Enquanto isso, me deliciava com um pote de iogurte que alguma alma bondosa havia deixado no refúgio. Nosso descanso foi interrompido com o som da buzina da Tracker. Era o Tiago nos apurando para vazar embora de uma vez.

Ao retornar ao acampamento Atacama, começou a ventar fortemente, jogando areia para todo o lado. Apuramos para organizar as barracas que havíamos deixado montadas ali para que pudéssemos entrar nelas logo antes que a ventania piorasse. E assim que nos abrigamos, começou uma tempestade de areia, que não deu trégua. O jeito foi ficar sentados em nossas cadeiras dobráveis da Sea to Summit tomando mate para se reidratar. Esse dia fez o Chico compreender o porquê da insistência em ancorar as barracas com as maiores pedras o possível.

O  dia seguinte, dia 24/02/2019, amanheceu  mais calmo, com menos vento. Em seguida descobri que havia tomado uma tostada feia na testa. Minha ideia de puxar bem a balaclava não funcionou. 

Logo após o café da manhã, começamos a desmontar o acampamento para descer para Copiapó, onde deixamos o Chico no hotel. Os alemães do jipe foram embora no mesmo dia, depois de terem ocupado os dois refúgios do Atacama, sem sequer ter saído de lá e ter aporrinhado o Pedro por causa de besteiras. Ficamos tentando entender o que eles foram fazer lá. 

Eu e o Tiago ainda pernoitamos mais uma noite no deserto, para o dia seguinte voltar a Copiapó para buscar o Pedro Hauck que estava sem carro (estragou de novo), que pegou carona conosco até Mendoza via Paso Pircas Negras.

E de Mendoza a convite do Pedro comemos mais uma parrilla argentina e partimos de volta para Santa Maria RS (1740 Km de distância), terminando, assim, essa incrível temporada. E em 2020 tem mais!

Relato da ascensão ao Cerro Mercedário com 6720 metros.

Relato da ascensão ao Cerro Aconcágua com 6962 metros.

Autora: Luciana Moro

Fotos: Tiago Korb

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