Clube Trekking nas montanhas dos Andes

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Em 11 de janeiro de 2017, Tiago Korb e Luciana Moro deram mais um passo no montanhismo, passando a incluir montanhas de altitude no currículo. Planejavam sua primeira ascensão ao Cerro Plata na Argentina, com 5.958 metros de altitude, ainda em 2015. E desde então começaram a se equipar e a planejar.

Foi em 2016 que se intensificou a preparação para os Andes, pois haviam decidido fazer a montanha em janeiro de 2017. Eles mesmos planejaram tudo, desde a logística de viagem, equipamentos a serem usados, as metas diárias, as etapas de aclimatação e etc. Era necessário que esse planejamento fosse bem certinho, pois optaram por fazer montanha por meios totalmente autossuficiente, sem a contratação de guia ou suporte de agência. Não havia margem para erros graves. Eles escolheram viver a montanha de verdade.

No dia 11 de janeiro de 2017 chegaram no Parque Nacional Cordón del Plata na Argentina. Primeira vez que viam montanhas nevadas e mil pensamentos e expectativas passavam em suas mentes.

Acampamento na base do Parque Nacional Cordón del Plata

Um dia depois de sua chegada, começaram o processo de aclimatação, subindo o Cerro Arenales (3.350 metros de altitude), Cerro Loma Blanca (3.650 metros de altitude) e Cerro San Bernardo (4.150 metros de altitude).

Subida até o últumo acampamento (La Hollada).

A conquista do sonhado cume o Cerro Plata aconteceu no quinto dia. O ataque foi bem exigente, pois além do desnível de aproximadamente 1.300 metros partindo do acampamento La Hollada, eram 8 km até cume, que na altitude parece uma eternidade. Mas como recompensa, além da sensação de dever cumprido, o céu estava limpo e a vista era belíssima, da qual se destacava o Aconcágua, a sentinela de pedra e a maior montanha das Américas, com 6.962 metros de altitude.

Cume do Cerro Plata

Depois da ascensão ao Plata, na sequência, de 19 a 22 de janeiro, realizaram o Cruce de los Andes, percorrendo 67,91 Km a pé. Este trekking, que atravessa os Andes Centrais, além de belíssimo, possui um grande valor histórico, uma vez que o trajeto é o mesmo realizado pelo General San Martin durante a travessia pela libertação dos territórios da América do Sul da Coroa Espanhola. A Cruce de los Andes foi considerado um dos maiores feitos na história militar mundial, e um dos grandes marcos na história da Argentina.

Cruce de Los Andes

Em março do mesmo ano, o casal voltou à Argentina para escalar o Cerro Mercedário, com 6.770 metros de altitude, considerada a oitava maior montanha dos Andes. Montanha isolada e de uma beleza selvagem.

Nesta, porém, não tiveram tanta sorte com o tempo bom como foi no Cerro Plata. O vento forte não deu trégua por dias e chegaram até o último acampamento da montanha, o “El Diente”, a 6.150 metros de altitude. Porém, no dia de ataque ao cume, os ventos fortes voltaram e com mais intensidade, com rajadas de até 120 km/h. A sensação térmica era de -40ºC. Por segurança, decidiram respeitar a mãe natureza e não atacaram o cume, descendo a montanha.

Mercedário – subida ao acampamento Diente

Obviamente, já pensavam em voltar aos Andes na próxima temporada para fazer outra montanha de 6 mil. A dúvida estava entre o Ojos del Salado (6.893 metros de altitude) e o Monte Pissis (6.793 metros de altitude). A ideia principal era fazer “apenas” o Ojos del Salado, mas em meio a tantos planos, ideias e ajustes, o Pissis foi adicionado ao planejamento.

Em 14 de fevereiro de 2018, juntamente com o amigo Pedro Abrão de Maringá-PR, o casal santa-mariense partiu para a Puna do Atacama para escalar os 6 mil. E de carro 4×4, atravessaram a fronteira entre Argentina e Chile e chegaram até a Laguna Santa Rosa, localizada a 3.700 metros de altitude, para começar o processo de aclimatação escalando o Cerro Siete Hermanas (com 4.800 metros de altitude aproximadamente).

Essa região da Puna do Atacama é bastante remota, sendo que a cidade mais próxima é Copiapó-Chile, que fica a 200 km da aduana chilena, o que requer uma logística bem planejada, principalmente de água e combustível.

Continuando o processo de aclimatação, partiram da Laguna Santa Rosa para a Laguna Verde (localizada a 4.300 metros de altitude), uma espécie de “point” onde se concentram outras expedições para alta montanha, mochileiros, e até mesmo turistas que estavam passando pelo Passo.

Não é por acaso que a Laguna Verde é bastante visada, pois além de deslumbrante, possui espaço para várias barracas, um refúgio e águas termais.

 

Dalí partiram para fizer o trekking ao Mulas Muertas até a faixa dos 5 mil metros. E no 4º dia, de manhã cedo, foram até a base do Nevado San Francisco, o primeiro seis mil da temporada, com 6018 metros de altitude. Subiram a precaríssima estrada da montanha e deixaram o carro a 4.900. O San Francisco é considerado o seis mil mais acessível dos Andes, talvez porque fica bem ao lado da estrada. Mas a sua ascensão é bem exigente, ainda mais para o primeiro ciclo de aclimatação. O ataque ao cume soma mais de mil metros de desnível, totalizando uma distância de mais de 7 km.

Cume do Nevado San Francisco

Depois de escalarem com êxito o San Francisco, os três voltaram  para a Laguna Verde, onde ficaram mais um dia descansando para encarar a próxima montanha. E no 6º dia, partiram de carro para a base do Ojos del Salado, o acampamento Atacama, a 5.200 metros de altitude.

No dia seguinte, fizeram um ataque até o Refúgio Tejos, a 5.800 metros, para fins de aclimatação, para no dia subsequente subir com o equipamento para o refúgio mais alto. Estava acampada no Tejos, havia mais de semanas, uma equipe húngara que estava fazendo uma pesquisa de solo. Um deles havia feito o ataque ao cume do Ojos três dias antes, e relatou que havia muita neve durante o trajeto, ilustrando a dificuldade que o trio brasileiro enfrentaria.

Além da agradável companhia dos húngaros, o refúgio era bastante movimentado, pois pessoas de outras equipes subiam para fazer suas respectivas aclimatações e depois voltavam para o acampamento Atacama. A maioria dos presentes eram europeus, alguns chilenos, argentinos e um brasileiro de Santa Catarina, que os presenteou com deliciosas paçoquinhas de amendoim.

Às 3:30 da manhã do dia 27 de março, Luciana, Pedro e Tiago deixavam o refúgio Tejos para atacar o cume do Ojos del Salado. No frio da madrugada, subiam a montanha afundando suas botas duplas na neve. Em meio à escuridão via-se outras lanternas na montanha. Mas assim que amanheceu, eles desistiram e desceram. Ficaram só os três.

Nos últimos quatrocentos metros de escalada, a neve estava mais alta, chegando a ter trechos em que era possível afundar até a coxa. Foi muito desgastante. Na verdade, aquela, além da montanha mais difícil experimentado por eles, foi a experiência mais desgastante. A montanha foi exigente desde o início até o fim da escalada. Nem mesmo na cratera, a mais de 6.800 metros de altitude, a neve funda deu trégua. E ainda, na subida da grande rocha do cume, o gelo estava cristalizado, mais um obstáculo. Tudo isso somada a uma breve nevasca na descida da montanha. Foi conquista bastante árdua e emocionante. O Ojos del Salado foi uma grande escola.

Ojos del Salado

Depois de escalar o Ojos del Salado, o trio desceu até Copiapó, no Chile, a cidade mais próxima do Paso, para reabastecer de água, combustível e alimentos para a próxima etapa da viagem.

Voltaram ao Passo e foram até a base do Tres Cruces Sur, a 4.900 metros. No dia seguinte, começaram a escalar a montanha. O objetivo era chegar até o acampamento a 6.100 metros ainda naquele dia, para no outro atacar o cume. Chegando aos 5.900do Tres Cruces, ainda não recuperado do desgaste da escalada ao Ojos, o Tiago decide descer. A Luciana, que ainda sentia dor nos três dedos congelados no Ojos, temendo que o estado deles viesse a piorar caso tivesse trechos de neve funda (nos últimos 300 metros do Tres Cuces tem um labirinto de pedras, e entre elas tem buracos no qual se afunda na neve), optou por descer também. O Pedro decidiu seguir, e o casal apoiou o amigo, pelo qual esperaram ansiosamente na base.

Depois dessa etapa, deram baixa no Chile e entraram na Argentina para concluir a temporada. Dia 8 de março saíram de Fiambalá rumo ao Pissis, encarando mais de 90 km de estrada 4×4 até a base da montanha. Apesar de longe, o caminho apresentou agradáveis surpresas como a Laguna Celeste e a Laguna Verde (outra Laguna Verde).

O vulcão Pissis era a montanha menos nevada em relação às outras que escalamos na temporada. Seus trechos de neve estavam concentrados bem próximos ao cume, além de ser uma neve melhor de caminhar, ou seja, não afundava. Esta última ascensão foi mais rápida, levando apenas três dias, uma vez que os montanhistas já estavam aclimatados. No dia 09 de março partiram da base, a 4.500 metros, e chegaram no acampamento a 5.400 metros de altitude. O segundo dia de Pissis foi bem exigente. Encararam metros de uma geleira íngreme e acamparam a mais de 6.200 metros de altitude. No terceiro dia, os três saíram das respectivas barracas às 9:30 da manhã para atacar o cume, evitando o frio intenso da madrugada. Do Pissis se viam muitas e muitas outras montanhas de 6 mil. Uma das vistas mais lindas que puderam ter em suas vidas até então.

Cume do Monte Pissis

Depois da conquista, voltaram para o acampamento alto e ali pernoitaram para aproveitar as últimas horas de montanha da temporada. Voltaram para a base no dia 11 e ali foi concluída essa grande e incrível jornada.

Depois dessa temporada maravilhosa, o casal voltou entusiasmado e com planos para 2019. Antes mesmo de colocarem os pés de volta na porta de casa, já tinham a certeza que escalariam o Aconcágua no próximo ano, e juntamente, mais algum seis mil.

 

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